jul 05, 2016 / por Ricardo Ventura / Nenhum Comentário

Um Negão, um Homossexual, um Nordestino e um Fracassado.

Quando eu tinha por volta dos 9 anos quase ninguém tinha telefone, mas chegávamos uns as casas dos outros e éramos bem recebidos pelas “tias”, normalmente no final da tarde tinha café com leite e pão com manteiga, que a gente molhava na xícara e comia pingando por toda toalha…

Nessa época eu tinha muitos amigos…
Alguns gordos e outros magérrimos como eu…
Tinha apelido para todo lado: cabeção, magrão, baboo(o gordão) dentinho, neguinho, zóio, zoreia floquinhos(o cheio de pintas) e por ai vai…
Zuavamos uns aos outros…às vezes saia até briga e voava kichute dos mais ricos e havaianas com prego dos mais pobres…
Mas no máximo, no dia seguinte estávamos todos juntos jogando bolinha-boxe ou golzinho.

Hoje não pode ter apelido: é bullying.

Brincávamos de polícia e ladrão… (adorava ser ladrão)
Fumava cigarrinho de chocolate e tinha várias armas de brinquedo. Tinha até um suquinho que vendia na feira em embalagens plásticas em vários formatos, um deles de revolver 38.
Nunca matei ninguém e não fumo.

Na escola sempre tirei notas boas, mas era da turma do fundão… Fui algumas vezes para diretoria, mas minha mãe não chegava culpando os professores ou a escola…( a pergunta dela era – o que você aprontou Ricardo)
Não me senti menos amado por ela, por causa disso.

Não tive todos brinquedos que queria ter, não recebi todos os “sims” que queria ter recebido, não fui convidado para todas as festas que queria ter ido…
E incrivelmente não fiquei traumatizado.

Nessa época eu tinha quatro grandes ídolos: Um Negão pinguço, um Homossexual enrustido, um Nordestino analfabeto e um Fracassado que servia de escada para os outros três.
Não me tornei pinguço, não percebi gay como sendo menos ou mais, não tive aversão à livros e não fiquei me achando um bosta, quando passado para trás.

Nunca fui isolado ou forçado a conviver com esta ou aquela dita parcela marginal da população.
Não existiam cotas disso ou daquilo, existiam pessoas, sempre aprendi que as pessoas mereciam reconhecimento por mérito, não por serem minorias.
Acho que tive a sorte de conviver com os mais variados tipos de pessoas – PESSOAS – e não cotistas, que se acham no direito de projetar suas convicções aos diferente de si.

Amo alguns negros e odeio alguns neguinhos, não pela sua cor!
Amo gays e odeio homossexuais, não pelo seu prazer sexual!
Amo católicos e odeio cristão, não pela sua fé!
Amo mulheres e odeio garotas, não pelo seu gênero!
Amo inteligentes e odeio cdf´s, não pelo seu Q.I.!
Amo pobres e odeio favelados, não pela sua carteira!

Não acredite no meu amor ou no meu ódio por você pertencer a um grupo.
Você é maior que uma definição cotista. Meus sentimentos não enxergam cotas!
Não me obrigue a nada!

A intolerância é criada por todos os lados.
Ela cega, judia e mata!
Meus sentimentos a todas as PESSOAS que morreram em Orlando e em cada canto desse planeta pela intolerância cega.

*alguém sabe quem eram meus ídolos na década de 70?

Ricardo Ventura!
Não julgue meu gosto pelo seu paladar.
www.ricardoventura.com.br

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